Drama Grego Acaba Em Tragédia

Por Brian Dolan, Chefe da Equipa de Estratégia de Mercado Tema sugerido por: James He, Embaixador da Marca, Universidade McMaster

 

Fim de Linha para a Grécia?

Depois de as negociações com os seus credores terem batido contra uma parede aparentemente impenetrável, o governo grego impôs este fim de semana controlos de capital e encerrou os bancos do país pelo menos durante uma semana. A Bolsa de Atenas anunciou também o seu encerramento enquanto os bancos permanecerem fechados. Os gregos não podem enviar dinheiro para fora do país e apenas podem levantar 60 euros por dia, entre outras restrições às movimentações de capital. O governo marcou um referendo nacional para 5 de Julho para que os eleitores decidam "sim" ou "não" quanto à aceitação das condições impostas pelos credores da Grécia (o Banco Central Europeu [BCE], o Fundo Monetário Internacional [FMI] e a União Europeia [UE]).

Uma vitória do 'sim' significará que os eleitores aprovam a continuação das medidas de austeridade que a Grécia foi forçada a adoptar e abrirá a porta a novos fundos de resgate. Uma vitória do "não" poderá abrir a porta do 'Grexit' - a Grécia não cumpre o pagamento da sua dívida e é forçada a sair da moeda única. Embora uma vitória do "sim" possa, provavelmente, evitar uma catástrofe financeira, poderá também condenar a economia grega e o seu povo a dificuldades ainda maiores nos próximos anos, sem que se vislumbre um fim para esta situação.

Uma vitória do "não" irá provavelmente provocar o caos financeiro na Grécia e talvez noutros países particularmente vulneráveis da zona euro, tal como Portugal, Espanha e Itália. Há também a possibilidade de um contágio mais amplo, afectando negativamente os mercados globais, na medida em que os investidores poderão fugir da incerteza europeia e procurar a segurança dos títulos nacionais não europeus, tais como os títulos da tesouraria dos EUA ou os títulos do governo japonês.

É difícil avaliar as consequências do referendo. Em sondagens recentes, os gregos expressaram um forte desejo de manter o Euro e permanecer na Zona Euro. Simultaneamente, votaram de forma esmagadora a favor do actual governo, com base na sua plataforma anti-austeridade. As duras condições do pacote de ajuda que está a ser votado é, para muitos, um insulto ao orgulho e à independência dos gregos. Estou inclinado a pensar que o "sim" irá vencer e que este resultado dará espaço ao governo para manobrar e regressar à mesa de negociações.

O Tempo Urge

Muito provavelmente, a Grécia vai falhar o pagamento agendado de 1,5 mil milhões de euros a ser feito ao FMI a 30 de junho. Se não conseguir pagar, será excluída de qualquer outra ajuda financeira do FMI, acelerando, provavelmente, o movimento em direcção ao Grexit. Presumindo que o voto no "sim" vai vencer, o Eurogrupo de credores (BCE e UE) poderá então desenvolver um terceiro pacote de ajuda, permitindo à Grécia honrar o seu compromisso para com o FMI e também obter mais financiamento desta entidade. A Grécia tem também agendado para 20 de Julho um pagamento de títulos ao BCE no valor de 3,5 mil milhões de euros. Mesmo com uma vitória do "sim", o calendário é extremamente apertado; é necessário que tudo corra rapidamente e sem problemas para que os pacotes de ajuda sejam disponibilizados e para que os pagamentos sejam efectuados.

Isto prenuncia uma semana muito tensa para os investidores e para os mercados. Também é provável que a liquidez do mercado se torne um problema com a aproximação do fim-de-semana prolongado do Dia da Independência nos EUA. (Sexta-feira é feriado no mercado dos EUA.)

O Que Significa a Grécia Para os Investidores?

Até este fim de semana, quando as negociações entre a Grécia e a UE foram suspensas, os mercados globais estavam a reagir de forma relativamente calma ao drama grego, provavelmente com a expectativas de que um acordo seria finalmente alcançado. Agora que o Grexit é visto por muitos como o cenário mais provável (e, para alguns, como um facto consumado), os mercados começaram a mostrar alguns sinais de tensão. O facto de os mercados chineses também terem caído bruscamente antes deste fim-de-semana é mais um revés significativo para a confiança dos investidores a nível global.

Tudo somado, as consequências têm sido, até ao momento, relativamente moderadas, não assumindo a gravidade da crise de 2011/12, quando eclodiu pela primeira vez o problema da crise da dívida grega (por exemplo, os rendimentos gregos, num prazo de 10 anos, situavam-se nos 25/30%, fixando-se agora nos 14,5%). Mesmo assim, não há forma prever quantos activos de risco poderão cair nos próximos dias, e é sempre possível que as quedas dos mercados se transformem num ciclo vicioso a partir do momento em que os investidores entrem em pânico e comecem a abandonar os mercados.

A taxa de câmbio EUR/USD poderá ser um bom barómetro para aferir a dimensão de qualquer situação de pânico do mercado. Na segunda-feira que se seguiu ao fim-de-semana do colapso nas negociações, a taxa de câmbio EUR/USD começou o dia em baixa mas recuperou para encerrar acima do pico de sexta-feira. Mantenha-se atento aos índices de fraqueza continuada abaixo de 1,0950/60 (parte inferior da Ichimoku Cloud diária), e novamente abaixo de 1,0820 (valor mais baixo desde o final de Maio).

A minha expectativa inicial é a de que os mercados saberão lidar bem com o Grexit e não vão reagir de forma demasiado ríspida ao cenário inverso. Eu recomendaria o uso de ainda mais fraqueza para meter o dinheiro parado a funcionar, e a compra de acções de forma progressiva quando houver outras quedas. Caso se dê uma ruptura mais nítida, o melhor será esperar por alguns sinais de estabilização antes de se retomar uma abordagem de compra em escala apropriada. No final de contas, a Grécia é uma economia pequena e o seu destino não deverá alterar significativamente o panorama económico global. O Grexit seria um drama para o povo grego e uma enorme brecha na unidade europeia, mas o impacto económico deverá ser bastante menor. Com isso em mente, assim que a poeira assentar e os mercados perceberem que um incumprimento grego e o Grexit não são o fim do mundo, é de esperar que os principais mercados recuperem rapidamente. De um ponto de vista mais positivo, se se evitar um Grexit e se alcançar uma solução positiva, também é expectável que os mercados de risco recuperem significativamente.