Acabou a Munição? E Agora?

Por Brian Dolan, Estrategista Chefe de Mercado, DriveWealth O BCE dispara sua última bala

Na minha Perspectiva do Mercado Global de 2016, sugeri que os principais bancos centrais (exceto o Fed dos EUA) continuariam a incentivar a economia global com medidas adicionais de flexibilização. Até o momento, o Banco do Japão (BOJ) baixou as taxas de juro para valores negativos no final de janeiro. Em fevereiro, o Banco Popular da China (PBOC) cortou os juros novamente e também reduziu a razão de reserva dos bancos para estimular ainda mais os empréstimos. Alguns bancos centrais menores também realizaram uma flexibilização adicional, como a Suécia em meados de fevereiro, e, hoje, a Nova Zelândia.

Hoje, a grande novidade veio do Banco Central Europeu (BCE), que reduziu os juros para um valor ainda mais negativo (taxas o/n de -0,3 para -0,4%) e aumentou o tamanho e âmbito do seu programa de compra de ativos (flexibilização quantitativa, ou QE). As ações do BCE foram em geral conforme o esperado (apesar de a expansão dos ativos elegíveis para compra poder ser considerada um impulso adicional). E a reação do mercado refletiu perfeitamente o efeito “compre o rumor e venda o fato”.

Citei a minha Perspectiva de 2016 no início desta nota porque grande parte da minha expectativa para o ano se baseava em que os bancos centrais viessem ao resgate, freando o colapso do mercado global de Janeiro e Fevereiro e provocando um ricochete. No entanto, eu pensei que o processo seria um pouco mais demorado, talvez se desenrolando ao longo do primeiro semestre do ano, ao invés de acontecer em apenas 2 meses e meio.

EUA e China - Os Últimos Dois Que Permanecem

Agora que o BCE parece ter disparado sua última rajada de balas do ano, eu estou observando o Fed e o PBOC como os dois únicos verdadeiros atores que permanecem no palco. É bem verdade que o BCE e o BOJ podem continuar a cortar ainda mais os juros para valores ainda mais negativos, mas não acho que se possa obter muito mais tração através de juros. Com respeito à QE, ambos estão basicamente limitados pelos tipos de ativos que podem efetivamente comprar, então não espero muito mais alívio de lá. (O ponto positivo para essas duas economias aconteceria se o Japão abandonasse os planos de aumentar seu imposto sobre vendas ainda este ano, o que parece estar acontecendo. Mas ao invés de melhorar as perspectivas japonesas, isso apenas remove um potencial obstáculo. Ainda assim, no geral positivo para o Japão)

O que nos traz de volta para o Fed e o PBOC/China. Para a China, eu prevejo medidas de estímulo adicionais ao longo do ano de acordo com as circunstâncias. Os chineses parecem estar trazendo de volta a cartilha de facilitação de crédito e estímulo de investimento em infraestrutura como forma de dar apoio à economia nacional. No geral, isso é bom para a economia global (um risco positivo), para as commodities e os mercados emergentes em particular. No entanto, ainda resta ver se esses esforços dos chineses terão sucesso; fique de olho nos dados vindos da China, os mais recentes deles sugerem um pouco mais de melancolia antes da luz no fim do túnel.

O Pêndulo do Fed Continua Oscilando

Com respeito ao Fed, percorremos cerca de três quartos do primeiro ciclo de expectativas de alta dos juros do Fed: o ano começou com grandes expectativas de outra alta em março; depois, as expectativas depois caíram para zero; e nos últimos tempos começaram a se recuperar para uma alta em junho (ver gráfico). Acho que o pêndulo da expectativa de aumento dos juros do Fed continuará a oscilar ao longo do ano, e isso forma a base do minha previsão para 2016 de que as ações continuariam também a oscilar.

Expectativas do Mercado para um Aumento de Juros do Fed na Reunião de Junho

fed rate hike

Source: Bloomberg; DriveWealth

Fonte: Bloomberg; DriveWealth

A expectativa de aumento dos juros do Fed continuarão a depender fortemente de dados dos EUA e indícios recentes apontam para uma ação do Fed em junho. No entanto, em meio a tendências globais e a um fraco aumento dos salários, os riscos ainda tendem em direção a um vacilo do crescimento dos EUA, em vez de aceleração, ou seja, é mais provável o pêndulo do Fed balançar para uma redução da expectativa de aumento das taxas de juro. Apenas dados dos EUA espetaculares de verdade, em conjunto com um impulso global no mínimo estável, fariam com que as expectativas de aumento das taxas de juro subissem para mais de um aumento este ano.

Não acho que haja qualquer motivo para a noção de que a meta da taxa de juros do Fed não pode continuar a divergir dos outros grandes bancos centrais. Eles têm obrigações legais para cumprir e os EUA são uma economia mais fechada do que as outras, o que significa que o Fed deve concentrar-se nas condições dos EUA. É claro, acontecimentos globais terão um impacto sobre a tomada de decisão do Fed na medida em que irão afetar as perspectivas dos EUA, mas não há nenhuma regra que diga que os juros dos EUA não podem continuar a divergir.

Falando nisso, não se esqueça do dólar americano. Conforme as o pêndulo das expectativas do Fed continua a oscilar, o dólar americano também vai flutuar em relação a outras moedas importantes. Na medida em que as expectativas de aumento do Fed sobem, o dólar deve ir melhor que as outras. Mas há também uma assimetria negativa do dólar atuando caso o quadro global se deteriore: o dólar americano tem mais risco de queda se as expectativas de aumento dos juros dos EUA diminuírem do que potencial de crescimento se as expectativas de aumento dos juros dos EUA subirem. Isso se deve principalmente ao posicionamento do mercado a favor do dólar americano e contra outras moedas importantes em geral.

Perspectivas de Curto Prazo

Em suma, então, permaneço com minha opinião de que as ações globais desenvolvidas permanecem a única perspectiva viável para os investidores que buscam retorno em 2016. E também que os mercados globais vão continuar a oscilar como resultado do panorama global vacilante, o que sugere uma abordagem mais ativa para compra na baixa e venda na alta.

Nós acabamos de passar pelo primeiro ciclo - queda das ações, compra na baixa; recuperação das ações, venda na alta. Eu acho que a recuperação atual está estagnando e agora eu tentaria tirar proveito dos potenciais reveses para reestabelecer uma posição longa central em ações globais. A reação após o BCE sugere uma falha de mercado e potencial rejeição em relação aos níveis chave (No MSCI World Index MXWO, possível falha acima da nuvem diária, acima da linha Weekly Kijun, e uma parada em 61.8% da reversão do declínio desde a última reunião do BCE.) (Sexta-feira será um dia importante. Estou escrevendo isso na hora do fechamento de quinta-feira, de forma que não tenho um fechamento semanal com que trabalhar.) Reciprocamente, um fechamento acima da alta da semana passada significa que estou enganado e que a reação ao BCE foi apenas uma finta, e que a recuperação tem mais espaço para seguir em frente.